Por Katia Lema Perez, diretora do Ibrac – Instituto Brasileiro de Auditoria e Compliance
A crise enfrentada pela Unimed FERJ, amplamente noticiada pela imprensa, não deve ser analisada apenas como um episódio isolado de dificuldades financeiras. Trata-se, na verdade, de um exemplo emblemático de como a ausência de mecanismos eficazes de governança corporativa pode levar grandes organizações a situações críticas — com impactos diretos para fornecedores, colaboradores e, principalmente, para os beneficiários dos serviços de saúde.
Segundo reportagens sobre o tema, a cooperativa acumula dívidas que ultrapassam R$ 2 bilhões. Como resultado, sofreu um abrupto descredenciamento em massa - foram mais de 40 instituições que pediram desligamento da carteira. O agravamento desse cenário resultou na intervenção da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e na transferência de parte dos beneficiários para outras cooperativas, em uma tentativa de preservar a continuidade mínima do atendimento assistencial.
Crises desse tipo não costumam ser surpresa: elas são consequências de sinais ignorados por tempo demais e evidenciam que falhas de gestão e governança não se restringem ao campo financeiro, elas atingem diretamente o direito fundamental à saúde.
O setor de saúde suplementar lida diariamente com altos volumes de recursos, contratos complexos, múltiplos prestadores e forte regulação. Nesse contexto, as crises financeiras ou reputacionais são, na maioria das vezes, anunciadas por indícios claros, como desequilíbrio de fluxo de caixa, crescimento desordenado de despesas, fragilidade nos controles internos, falhas de compliance e decisões tomadas no escuro.
É justamente nesse ponto que a auditoria preditiva se mostra essencial. Diferente do modelo tradicional, que olha apenas para o passado, a auditoria preditiva atua de forma contínua, cruzando dados operacionais, financeiros e assistenciais para antecipar riscos, identificar gargalos e sinalizar tendências que possam comprometer a sustentabilidade da organização. Quando bem aplicada, ela permite correções de rota antes que o problema se transforme em crise institucional.
Da mesma forma, programas de compliance efetivos não se resumem ao cumprimento formal de normas ou à existência de códigos de conduta. Eles envolvem cultura organizacional, transparência na tomada de decisão, gestão ética, canais de denúncia ativos e independentes, além de monitoramento constante de riscos regulatórios e financeiros. Em ambientes onde o compliance é tratado como pilar estratégico (e não como custo), a capacidade de resposta a cenários adversos é significativamente maior.
No setor de saúde, a ausência desses instrumentos não afeta apenas balanços e reputações. Ela compromete a continuidade do cuidado, gera insegurança para pacientes e fragiliza a confiança no sistema como um todo. Por isso, crises como a que se observa devem servir de alerta para todo o mercado.
Investir em auditoria preditiva, governança robusta e compliance integrado à estratégia não é uma opção, mas uma necessidade para organizações que desejam longevidade, credibilidade e responsabilidade social. Prevenir crises é sempre menos custoso e desgastante do que remediá-las.